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Em novo show, Chico Buarque faz pontes entre o álbum 'Caravanas' e sua obra      

29 AGO 2017
29 de Agosto de 2017

Por causa de seu posicionamento político, Chico Buarque tem sido alvo frequente de ataques nas redes sociais e na rua. Mas, se o compositor tinha algum receio de que algumas dessas pessoas pudessem estar ontem, 13, na plateia do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, na estreia de sua turnê Caravanas, e hostilizá-lo, isso foi por terra antes mesmo de as cortinas se abrirem.

A ansiedade do público presente, 1600 pessoas que lotavam o teatro do local, explodiu em aplausos e urros assim que Chico Buarque e sua banda apareceram no palco. Eles foram recebidos de pé. O entusiasmo não foi à toa: para os fãs de Chico, a espera foi de 6 anos desde sua turnê anterior, Chico. 

O show teve cerca de 1h40 de duração. Além das 9 canções do novo disco, lançado em agosto, fez-se mistério em relação às demais músicas que iriam compor o repertório da nova turnê. E as escolhas dessas músicas foram preciosas. Sem seguir ordens cronológicas, Chico fez pontes entre as músicas inéditas e as canções que ele gravou ao longo dos últimos 50 anos, mostrando a coerência - e a unidade - de sua obra.

Com parte da família na plateia, como a filha Silvia Buarque, e os netos Chico Brown e Clara Buarque, que participaram do novo álbum do avô, Caravanas, Chico Buarque abriu o show, de pé, ao violão, com Minha Embaixada Chegou (Assis Valente, 1934), Mambembe (Chico Buarque, 1972), e emendou com Partido Alto (Chico Buarque, 1972) e Iolanda (Pablo Milanés; versão de Chico Buarque, 1984) e, do novo disco, Casualmente (Jorge Helder / Chico Buarque, 2017) e A Moça do Sonho (Edu Lobo / Chico Buarque, 2001). 

Depois de falar do "grande Edu Lobo", Chico lembrou dos muitos parcerios de música que teve em mais de 50 anos, e das letras que escreveu para músicas que gostaria de ter feito. Sentou-se no banquinho e cantou, então, a bela Retrato em Branco e Preto, melodia de Tom Jobim e letra de Chico. Aliás, é bom ouvir clássicos buarqueanos na voz de seu compositor, e entram também nessa lista Gota D'Água e As Vitrines, encadeadas a outras canções dentro do repertório.

Em Dueto, Clara Buarque, que estava na plateia, não subiu ao palco para cantar com o avô, como os dois fazem no novo disco. No show, continua a ser um dueto, mas de Chico com a voz de Clara gravada. E, como aconteceu na gravação, ele também improvisa no finalzinho da música, citando agora Face e fax. O público se divertiu com o gracejo.   

Chico traçou pontes entre músicas de sua obra, e criou temas dentro do show, como em A Volta do Malandro (Chico Buarque, 1985) e Homenagem ao malandro (Chico Buarque, 1977/1978), e em Outros Sonhos (Chico Buarque, 2006) e Blues Pra Bia (Chico Buarque, 2017), ambas sobre amores que ficam no campo dos sonhos, dos desejos. Ele também dividiu o show em que parte das músicas cantou em pé, outra parte sentado, e na reta final do show, ele voltou a ficar de pé. 

Como esperado, homenageou o baterista Wilson das Neves - que morreu este ano e o acompanhou durante décadas -, colocando o chapéu característico do amigo e cantando o samba Grande Hotel, parceria dos dois, de 1997. Dava até para imaginar Das Neves dançando ao lado de Chico naquela hora. Triste a sua ausência. 

Das Neves já não tinha participado da gravação do novo disco da 'chefia', como ele costumava chamar Chico, e fora substituído por Jurim Moreira, que está também na turnê Caravanas. Da banda, primorosa, ainda fazem parte o maestro, arranjador e violonista Luiz Claudio Ramos, João Rebouças (piano), Chico Batera (percussão), Bia Paes Leme (teclados e vocais), Jorge Helder (contrabaixo), Marcelo Bernardes (flauta e sopros). 

Após o tributo a Das Neves de Chico, o plateia entoou o coro ‘Fora, Temer’, com o qual Chico concordou do palco. Chico demorou um pouco a entender o que se tratava aquele coro, por causa dos fones no ouvido para ter o retorno do palco. Brincou que passaria a usar aqueles fones quando fosse caminhar. É que, quando anda a pé por bairros nobres do Rio, costuma ouvir, de dentro dos carros que passam por ele, palavras de ordem como 'viado, vai pra Cuba!' ou 'viado, vai pra Paris!'. "O único consenso é o viado", disse, bem-humorado, Chico, o que fez o público cair na gargalhada. 

Um momento emocionante foi em Tua Cantiga, em que ele vai para a frente do palco e se aproxima mais do público. E a catarse se repetiu no bis com Geni O Zepelim - letra criticada em tempos do politicamente correto - e Para Todos. Meus caros amigos, Chico está de volta. E é bom vê-lo fechando, com um show tocante, um ano em que seus contemporâneos, como Gil, Caetano, Gal e João Bosco, também produziram, criaram e caíram na estrada. A jornada da turnê Caravanas prossegue no ano que vem, por Rio e São Paulo, que, aliás, vão ganhar datas extras de shows, além de outras capitais.

Neste sábado, 16, a partir das 10h, começa a venda de ingressos (nos canais online e nas bilheterias das respectivas casas de show) para datas extras dos shows no Rio e em São Paulo:

Datas extras Rio: de 25 a 28 de janeiro e de 1 a 4 de fevereiro - Vivo Rio

SP: duas semanas extras em abril, de 12 a 15 e de 19 a 22 - Tom Brasil

Set list da turnê Caravanas:

1)MINHA EMBAIXADA CHEGOU (Assis Valente –circa 1934) / MAMBEMBE (Chico Buarque – 1972)

2)PARTIDO ALTO (Chico Buarque – 1972)

3)IOLANDA (Pablo Milanés – versão de Chico Buarque – 1984)

4)CASUALMENTE (Jorge Helder / Chico Buarque – 2017)

5)A MOÇA DO SONHO (Edu Lobo / Chico Buarque – 2001)

6)RETRATO EM BRANCO E PRETO (Tom Jobim / Chico Buarque – 1968)

7)DESAFOROS (Chico Buarque – 2017)

8)INJURIADO (Chico Buarque – 1998)

9)DUETO (Chico Buarque – 1979)

10)A VOLTA DO MALANDRO (Chico Buarque – 1985)

11)HOMENAGEM AO MALANDRO (Chico Buarque – 1977/1978)

12)PALAVRA DE MULHER (Chico Buarque – 1985)

13)AS VITRINES (Chico Buarque – 1981)

14)JOGO DE BOLA (Chico Buarque – 2017)

15)MASSARANDUPIÓ (Chico Brown / Chico Buarque – 2017)

16)OUTROS SONHOS (Chico Buarque – 2006)

17)BLUES PRA BIA (Chico Buarque – 2017)

18)A HISTÓRIA DE LILY BRAUN (Edu Lobo / Chico Buarque – 1982)

19)A BELA E A FERA (Edu Lobo / Chico Buarque – 1982)

20)TODO 0 SENTIMENTO (Cristovão Bastos / Chico Buarque – 1987)

21)TUA CANTIGA (Cristovão Bastos / Chico Buarque – 2017)

22)SABIÁ (Tom Jobim / Chico Buarque – 1968)

23)GRANDE HOTEL (Wilson das Neves / Chico Buarque – 1997)

24)GOTA D’ÁGUA (Chico Buarque – 1975)

25)AS CARAVANAS (Chico Buarque – 2017)

26)ESTAÇÃO DERRADEIRA (Chico Buarque – 1987)

27)MINHA EMBAIXADA CHEGOU (Assis Valente - circa 1934)

 

Fonte: Estadão




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